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Depressão crônica altera forma como as redes cerebrais se comunicam

Fonte: Maria Fernanda Ziegler / Agência Fapesp

6/29/20264 min read

Para entender o impacto da depressão no organismo, um dos aspectos mais investigados é a gravidade dos sintomas. Mas um estudo realizado por cientistas da USP (Universidade de São Paulo) e da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sugere que a duração da doença também é um fator determinante para as mudanças estruturais que ocorrem no cérebro.

Os autores analisaram imagens cerebrais de 46 pacientes com transtorno depressivo maior (TDM), uma condição grave, caracterizada por tristeza persistente, desesperança e perda de interesse em atividades diárias.

Os resultados, publicados em fevereiro na revista Scientific Reports, indicam que a duração da doença está associada a mudanças na forma como determinadas redes cerebrais se comunicam. Esse achado pode ajudar a entender por que a depressão se manifesta de maneiras tão diferentes entre os pacientes e, no futuro, contribuir para o desenvolvimento de tratamentos personalizados.

“Identificamos que pacientes crônicos [com mais de 24 meses de depressão] e não crônicos apresentam padrões distintos de conexão entre duas redes funcionais importantes do cérebro, que desempenham papéis complementares: a Rede Executiva Central e a Rede de Modo Padrão”, conta Tamires Zanão, bolsista de pós-doutorado da Fapesp na Faculdade de Medicina da USP e primeira autora do estudo.

Rede Executiva Central

Responsável pelo chamado “controle executivo”, que envolve funções como atenção, planejamento e tomada de decisão, a Rede Executiva Central é mais recrutada durante tarefas que exigem foco no ambiente externo. Já a Rede de Modo Padrão está associada a processos mentais internos, como autorreflexão, memória autobiográfica e imaginação de situações futuras.

Em condições típicas, o cérebro alterna entre essas duas redes de maneira coordenada, usando uma terceira rede (chamada de rede de saliência) como um interruptor. Na depressão, porém, esse equilíbrio pode ser desfeito.

“Esse descompasso pode favorecer a predominância de pensamentos introspectivos, frequentemente com viés negativo. Isso ajuda a explicar por que pessoas com depressão tendem a ficar presas a pensamentos ruins [ruminação] e podem ter dificuldade em direcionar a atenção para o ambiente quando necessário”, explica Zanão à Agência Fapesp.

Dinâmica cerebral

Devido à sua alta complexidade, a Rede de Modo Padrão é frequentemente dividida em sub-redes. Uma região específica dessa rede de pensamentos internos (o pré-cúneo) funciona como uma espécie de “ponte” com a rede do controle cognitivo (a Executiva Central). É justamente nessa dinâmica que o fator "tempo" se revelou decisivo.

Os pesquisadores observaram que, em pessoas com episódios mais recentes de depressão, quanto mais graves eram os sintomas, mais fraca ficava a conexão entre a rede do foco e a da introspecção. Já em pacientes com depressão de longa duração (crônica) foi identificado o oposto: quanto maior a severidade, mais forte se tornava a conectividade entre essas redes – o que pode refletir mudanças progressivas na forma como elas se comunicam.

Estudos anteriores com indivíduos saudáveis observaram uma correlação positiva entre a Rede Executiva Central e a porção da Rede de Modo Padrão associada ao pré-cúneo. No estudo, embora não tenha havido comparação direta com indivíduos sem a doença, os pacientes com depressão de curta duração e menos sintomas apresentaram padrões de conectividade muito mais próximos do perfil considerado típico.

“Os resultados reforçam a hipótese de que as alterações na conectividade cerebral associadas à depressão não são estáticas. Estudos anteriores indicam que, em fases mais iniciais da doença, algumas redes podem apresentar redução da conectividade, enquanto casos recorrentes ou mais prolongados tendem a exibir padrões distintos de comunicação entre regiões cerebrais”, explica Zanão.

Mudanças na massa cinzenta

Outra conclusão do estudo é que a gravidade dos sintomas está associada ao volume de massa cinzenta (tecido cerebral rico em neurônios) em duas regiões específicas: o córtex cingulado anterior (que funciona como ponte entre a emoção e o pensamento, atuando na regulação emocional) e o córtex pré-frontal dorsolateral direito (região ligada ao controle da atenção e ao processamento de emoções negativas).

Embora em pessoas saudáveis um volume maior de massa cinzenta costume indicar um melhor funcionamento da região, nas pesquisas sobre depressão esses dados variam muito. Parte disso ocorre porque o uso de antidepressivos pode alterar a estrutura física do cérebro.

Como o estudo da USP incluiu apenas pacientes que não estavam tomando medicamentos no momento da análise, foi possível investigar alterações cerebrais potencialmente relacionadas à depressão sem a interferência do tratamento farmacológico.

A descoberta está alinhada com exames de tomografia e estimulação magnética transcraniana, que sugerem que a depressão envolve um desequilíbrio no córtex pré-frontal (a central de comando do cérebro), gerando menor atividade no lado esquerdo e maior atividade no lado direito.

“Uma das hipóteses propostas para explicar a depressão propõe que o córtex pré-frontal esquerdo está mais relacionado ao processamento de emoções positivas, enquanto o direito estaria mais associado às negativas. O fato de termos encontrado um aumento de volume justamente no córtex pré-frontal direito é compatível com essa hipótese. No entanto, a relação entre alterações no córtex pré-frontal e os sintomas depressivos continua sendo objeto de investigação, e ainda não existe consenso sobre sua utilidade como marcador biológico da doença”, diz a pesquisadora.

Para o futuro, avaliam os autores, os achados devem auxiliar no desenvolvimento de tratamentos mais personalizados.

“A escolha do tratamento da depressão ainda envolve um processo de ajuste individualizado ao longo do tempo, já que a resposta varia consideravelmente entre os pacientes. Estudos como este ajudam a avançar, mas precisamos de mais dados antes que essas informações guiem as decisões médicas no consultório”, completa.

Foto: Reprodução/Agência Fapesp/Prapat Aowsakorn/Vecteezy

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